Recheado de inovações em sua jogabilidade e design, Persona 5 se consagra como um dos melhores jogos da atualidade

Introdução

No mercado de JRPG muitos nomes acabam presos ao underground, por sua grande quantidade de títulos anuais e por muitas vezes se restringirem ao Japão. Porém, nos últimos anos, alguns bons nomes do gênero vem despertando a curiosidade ocidental. É o caso de Persona 5, desenvolvido pela Atlus e anunciado originalmente para PS3 e PS4. O jogo trouxe um forte interesse de quem não conhecia a franquia após ser anunciado como um exclusivo de peso para as plataformas da Sony, além de causar inquietação à Square Enix e seu aguardado título Final Fantasy XV. Mesmo com o interesse repentino gerado, boa parte de seus jogos já haviam sido localizados para o ocidente, mas por se direcionar a um nicho sua popularidade demorou a crescer.

A franquia Persona teve sua origem derivada da série Megami Tensei pertencente a Atlus, uma desenvolvedora japonesa. Seu primeiro título foi em 1987, mas se destacou mesmo em 1992 com Shin Megami Tensei. Teve atenção por apresentar uma temática sombria e pós-apocalíptica, com muito embasamento em diversas mitologias. Ainda trouxe um sistema completamente inovador de RPG por turnos, possibilitando a captura de demônios com designes peculiares e criativos. Em 1996 a Atlus lançou um spin-off chamado Revelations: Persona. Este trazia mudanças em seus conceitos, como a temática, que focava na vida de estudantes dentro de sua atmosfera soturna. O título inicial de Persona se saiu bem em vendas e criticas, se tornando um cult do Playstation 1. Tanto que uns anos mais tarde recebeu um remake para o PSP com algumas alterações. O mesmo aconteceu com Persona 2: Innocent Sin e Persona 2: Eternal Punishing, os dois sucessores da série lançados respectivamente em 1999 e 2000. Porém foi em 2006, no lançamento de Persona 3, que a série teve uma alta na popularidade, que foi maior ainda dois anos depois no lançamento de Persona 4, consagrado como um clássico do RPG underground. Após isso a desenvolvedora lançou novas versões e diversos spin-offs, que expandiram seus horizontes e chamaram a atenção para seu futuro título, Persona 5, anunciado no verão de 2014 pra PS3. Sofrendo diversos atrasos, o quinto título da franquia só chegou ao ocidente em maio de 2017, para PS3 e PS4.

História

Ambientado em Tokyo num ano misterioso — que aparenta ser 2016 — , Persona 5 nos conta a história de um jovem estudante que foi renegado pela sua família após ser injustamente acusado de agressão. Fadado a viver como um delinquente, nosso protagonista passa a morar no sótão de um café, e frequenta uma escola onde é pouco bem-vindo. Logo após sua chegada descobre um aplicativo misterioso que projeta o consciente de um indivíduo em uma estrutura física, onde seu coração é guardado. Usufruindo desse recurso ele se junta a um grupo de amigos com o objetivo de “roubar” os corações de criminosos para que confessem seus crimes, e assim começar uma reforma social.

A narrativa aborda temas bem complexos e que são dissertados durante seu decorrer. Ao lidarmos com um grupo de jovens deslocados que agem como justiceiros sociais, vemos a justiça como um dos principais assuntos. Somos obrigados a refletir até que ponto é bem aceito o ato de fazer justiça com as próprias mãos. Toda a impureza que precisamos lidar se tornam pertinentes quando pensamos o quão perigoso o mundo pode ser, dependendo das pessoas que vivem nele. Nisso, ainda é apresentado um conceito de controle social, que se dilui bem na trama devido às suas tecnologias serem equivalentes às nossas. Isso faz com que de fato este Persona dê uma importância maior pra uma grande massa de figurantes, fazendo com que o conhecimento da situação não se limite apenas aos personagens principais.

A Atlus costuma produzir títulos com bastante enfoque em sua narrativa, e todos elementos que contribuem para isso já são bem comuns em outros trabalhos da produtora, como Catherine e Trauma Center. Boa parte da história se apresenta através dos diálogos entre personagens característicos, que se dividem em situações extremamente obscuras e a vida escolar japonesa. Alguns detalhes do background aparecem de formas alternativas, com o acesso ao celular e a televisão. Ainda tem algumas cutscenes em anime que ilustram determinados momentos. Porém, a grande sacada foi a ordem cronológica dos acontecimentos, pois logo de cara somos atirados em um determinado ponto do jogo que nos força a seguir jogando até compreender tudo que está ocorrendo. Por este e outros motivos o seguimento da narrativa se torna algo extremamente surpreendente, trazendo um diferencial que compensa as personalidades manjadas de alguns personagens, que já são recorrentes na série.

Persona 5 conseguiu manter um bom equilíbrio ao mesclar e adaptar o clima de jogos passados. Ao mesmo tempo que temos um tema pesado que cria uma atmosfera obscura em diversas ocasiões, temos muitos momentos alegres e descontraídos com nosso grupo de amigos. Formando uma alternativa para aqueles que não aderiram a temática de títulos anteriores. Além disso, sua história é excessivamente rica em seus conceitos filosóficos, e é contada de uma maneira única que renovou o ar da série. O único ponto negativo está em alguns personagens que apesar de terem backgrounds elaborados, se desgastam por terem as mesmas características e personalidades recorrentes em outros títulos da franquia.

NOTA: 9,5

Jogabilidade

Mesmo mantendo seu clássico sistema de batalha por turnos, Persona 5 teve maestria em desenvolver e renovar outros lados de sua jogabilidade. Agora podemos conversar com os inimigos até certo ponto para obter dinheiro, itens ou sua forma de persona — são mais de duzentos. A maior novidade é a inserção do stealth e puzzles em sua exploração. Agora nosso percurso nas dungeons não se resume somente em andares de grandes corredores, onde apenas caminhamos, batalhamos e abrimos baús. Temos que ser mais cautelosos para não despertarmos a atenção de nenhum inimigo, e para isso temos a opção de nos esgueirar pelas sombras e surpreender aqueles a nossa frente. Também contamos com enigmas de pouca dificuldade, mas que acarretam na dinâmica dos locais, nos fazendo percorrer mais de uma vez o mesmo caminho a fim de desvendar uma solução para prosseguirmos. Para os fãs do antigo sistema de dungeons da série temos o “Mementos”, um complexo de longos corredores no qual são encaixados missões secundárias. Além disso a inserção de uma dificuldade mais receptiva(safe) mostrou que a Atlus está atenta ao conforto do jogador que recém conheceu a franquia. Mantendo seu requisito de experiencia a partir do nível médio, a desenvolvedora também disponibilizou gratuitamente por DLC uma dificuldade acima do difícil, para os jogadores que buscam desafio. Toda a inovação aderida somada às novidades faz com que o sistema de turnos de Persona seja revigorante de certa forma, nos mostrando que essa marca irá perdurar por muito tempo.

Na parte social possuímos diversas opções de atividades, fazendo com que seja difícil encaixarmos tudo dentro de nossa primeira jogatina. Mesmo com o foco sendo a progressão dos nossos relacionamentos, chamados de confidant, temos que aprimorar status para obtermos bons resultados nas provas, ou para liberarmos a interação com outros personagens. Para isso podemos ler livros, jogar videogame, assistir DVDs, estudar e fazer diversas outras coisas que vão nos ajudar a evoluir os devidos stats. Para realizar as atividades temos um dia dividido em três partes, sendo que a primeira só é livre em feriados e fins de semana— já que normalmente frequentamos aulas nesses períodos. No entanto passamos por um grave problema, onde muito desse tempo é inutilizável durante a progressão da história, simplesmente porque o gato Morgana nos manda dormir. Isso faz com que inutilizem muitos momentos, se tornando bem chato quando ocorre com frequência.

Um dos assuntos que sempre cercou a vertente social de Persona é a falta de opção na sexualidade do personagem. Visto que boa parte do conteúdo que presenciamos se desenrola em relações sociais, agregaria ter mais opções nesse sentido. Em Persona 3 Portable tivemos a oportunidade de escolher jogar com uma protagonista feminina, e essa fórmula foi muito bem aceita pela maioria. A inserção dessas opções seria uma boa ideia, tanto para a satisfação dos jogadores quanto para a imagem da desenvolvedora, então o motivo pelo qual isso não ocorre ainda é uma grande incógnita. Esse fator pode parecer dispensável para alguns, mas pensando na diversidade estabelecida no mundo, nos damos conta da falta que um recurso desses faz.

Felizmente Persona 5 criou um balanço ao renovar e manter elementos que tornam a química de sua jogabilidade atualizada e sólida. Nos entretemos por horas sem enjoar ao dividirmos nosso tempo entre suas vertentes. Suas estruturas ultrapassam uma geração e se mostram pertinentes para o futuro da série, nos deixando com expectativa para que os próximos títulos sejam tão bons quanto. Dentro do apresentado, o único problema são as ocasiões que nos impedem de aproveitar mais seu tempo — que parece pouco com tantas coisas para se fazer.

NOTA: 9,5

Áudio e Visual

Em termos visuais o que presenciamos em Persona 5 é uma imensa obra de arte. Todo o visual urbano já presente em outros títulos se dissipou em uma infinidade de desenhos que colorem nossa tela. Puxando para um lado jovem e descolado, seu conceito artístico nos surpreende a cada instante, mostrando o aproveitamento que a equipe de desenvolvimento teve em encher os olhos dos jogadores, explorando suas cores avermelhadas e escuras. Durante as finalizações especiais nas batalhas conseguimos ver até pegadas de pop art, que nos incentivam a terminar as lutas com estilo. Isto acabou servindo de vantagem, pois até esquecemos que sua produção ocorreu para a geração passada, tendo conceitos gráficos semelhantes ao belo jogo Catherine, e se distanciando de seus títulos anteriores.

Além de encantar com sua arte visual, ainda somos presenteados com uma das melhores trilhas sonoras da geração, que evidenciam o compositor Shoji Meguro se superando mais uma vez. Com canções melódicas que mesclam smooth jazz e funk, vamos sendo absorvidos para sua atmosfera de uma forma jamais vista. Trilhas que simplesmente vão passar a fazer sentido no seu cotidiano e ainda vão te viciar com melodias marcantes. Da parte mais melancólica teremos instrumentais com guitarras limpas que intercalam com teclados e criam um clima pesado para os devidos acontecimentos. Já nas partes mais empolgantes podemos contar com baixos cheios de groove, guitarras distorcidas e órgãos nos deixando em puro êxtase durante as épicas batalhas presenciadas. Tudo isso com a potente voz de Lyn Inaizumi contornando esse espetáculo de acid jazz.

É simplesmente incrível presenciar todo trabalho artístico, tanto visual quanto sonoro, durante as horas que ganhamos em Persona 5. Com certeza estes fatores deixaram claro que a Atlus tem um nível criativo diferenciado e que vai muito além de outras desenvolvedoras. Os desenhos, sons e vozes que servem de chão para a história mostraram o quão promissor o universo de Persona pode ser, nessa e nas próximas gerações. A franquia não se intimidou e chegou chutando a porta. O resultado foi seu brilhantismo oriental marcando o ocidente.

NOTA: 10

Custo benefício

O valor de chegada de Persona 5 variou muito. Seu preço na maioria das lojas foi entre 200–250R$. Porém alguns locais que o importaram conseguiram vender por uma quantia ainda mais baixa. Enquanto nos Estados Unidos a edição de pré-compra vinha com um steelbook e skin de controle, no Brasil as mídias físicas continham apenas seu disco.

Na PSN a mídia digital para PS3 está custando R$191,90, enquanto a de PS4 está R$229,90. Algumas DLCs de dublagem e dificuldade são gratuitas, porém a maioria das DLCs temáticas estão custando muito caro no Brasil, sendo que se trata de um conteúdo já inserido dentro do disco.

O preço de Persona 5 está numa média relativamente boa aqui para o Brasil. Levando em conta que muitos jogos orientais recebem preços absurdos, o título chegou com um valor condizente a seu conteúdo — que carrega uma longa campanha, que exige um mínimo de 80 horas para ser completada. Além disso, a procura em lojas online aumentam a chance de encontrar ótimos preços. O ponto negativo fica para suas perfumarias adicionais, que levam um alto valor sendo um conteúdo já presente na mídia.

NOTA: 9,5

Considerações Finais

É difícil organizar em palavras a sensação de experimentar algo que apresenta uma qualidade invejável em cada um de seus aspectos. Persona 5 tem a habilidade de nos confortar e impressionar durante toda sua execução. Mesmo sendo ousado e extravagante somos acolhidos pelo seu universo de forma cativante, como se fosse nosso segundo lar. Passamos a ver cada um de seus detalhes com a maior intimidade do mundo, pois é nos dado toda a liberdade para desfrutar da obra. Vivenciamos, aprendemos, somos desafiados, tanto a vencer quanto a pensar, por meio de diversos diálogos e simples comandos. Temos muito tempo para desfrutar, lentamente vamos boiando até chegar no ponto que todos queriam. O impacto mental causado só deixa mais claro o esforço de cada um que participou daquele projeto, e que em nome de uma cultura preparou uma trajetória marcante, tanto para os recém chegados quanto para os veteranos.

Persona 5 não se trata apenas de um jogo. Os conceitos psicológicos, filosóficos e sociológicos que servem de suporte para sua belíssima história, a jogabilidade simples e eficiente que nos conforta por sua comodidade, todos os sons que juntos fazem com que a atmosfera criada tome conta de nós, e as ilustrações exageradas que mostram a precisa falta de dosagem na criatividade dos seus desenvolvedores — e a vantagem disso. Todos esses fatores mostram o infinito potencial da obra, mas também revelam que estamos em boas mãos. Não tem problema apresentar defeitos, se as qualidades tiverem seus méritos elas contornarão isso, e farão com que cada um presente naquilo viva pra sempre com este tesouro dentro de si.

NOTA FINAL: 9,6

Jornalista crítico e pós-graduando em Filosofia. Escrevo no site: https://atorredecontrole.com.br

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